Em
entrevista no sábado (3), sobre as implicações regionais da operação militar
realizada na Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro. O Presidente
dos USA, Donald Trump, defendeu a intervenção militar e elevou o tom contra
países da América Latina. Sinalizando uma postura de confronto. Também direcionou
críticas ao presidente colombiano, Gustavo Petro, tratado como aliado do
governo venezuelano e fez advertências aos governos do México, da Colômbia e de
Cuba, ampliando a tensão diplomática na região. Isso
demonstra que o avanço dos Estados Unidos sobre a Venezuela não é um fato
isolado, nem um desvio circunstancial associado à figura de Donald Trump.
Trata-se da retomada explícita de uma lógica histórica de dominação imperial
sobre a América Latina, agora reembalada sob os discursos da “segurança”, do
combate ao crime organizado e do controle migratório. A ofensiva atual
evidencia que a ruptura simbolizada pela derrota da Alca (Área de Livre
Comércio das Américas), em 2005, foi real, porém jamais definitiva.
A Alca, proposta pelos
Estados Unidos nos anos 1990, pretendia criar uma ampla zona de livre comércio
envolvendo quase todos os países do continente, com exceção de Cuba. Embora
apresentada como um projeto de integração econômica, seu objetivo concreto era
aprofundar a dependência estrutural das economias latino-americanas,
beneficiando majoritariamente as grandes corporações, as multinacionais e o
capital estadunidense.

Naquele momento histórico, governos
progressistas liderados por Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Lula, marcou o auge
de um ciclo de afirmação soberana na região. O “Não à Alca” representou mais do
que a rejeição a um acordo comercial: foi a recusa coletiva a um projeto de
subordinação econômica, política e social aos interesses do imperialismo. Ao
mesmo tempo, a concentração estratégica de Washington no Oriente Médio abriu
espaço para experiências de integração regional, como o fortalecimento do
Mercosul, a criação da Unasul e da Celac, além da ampliação das relações
Sul-Sul.
Entretanto,
o refluxo desse ciclo progressista, somado à fragmentação política regional e à
ofensiva das elites locais, criou as condições para a restauração da influência
direta dos Estados Unidos. A ausência de uma estratégia regional coordenada,
aliada às crises de segurança, migração e desigualdade social, forneceu o
terreno fértil para o retorno do intervencionismo. Trump apenas radicalizou uma
política histórica, tornando-a mais explícita, mais agressiva e menos
disfarçada por retóricas diplomáticas.
A chamada “crise da segurança
pública”, amplamente explorada pela direita, possui raízes profundas no próprio
modelo econômico imposto à região, na guerra às drogas patrocinada pelos
Estados Unidos e na destruição sistemática de políticas sociais. A
militarização dos territórios pobres e a naturalização da violência estatal são
expressões diretas do esgotamento de um modelo que produz exclusão e
desigualdade.
Ao
mesmo tempo, a esquerda latino-americana, enfrentando os impactos acumulados do
neoliberalismo, da desigualdade social e da ofensiva permanente das elites
econômicas e dos grandes conglomerados de mídia, encontrou dificuldades para
consolidar, uma alternativa sólida, popular e duradoura. Esse vazio foi
rapidamente ocupado por projetos conservadores e autoritários, que se
apresentaram de forma oportunista como resposta ao descontentamento social,
desviando o debate das causas estruturais da crise. A normalização da
repressão, as mortes em operações policiais e a militarização do cotidiano
revela o grau de desesperança produzido por décadas de exclusão social.

No caso
venezuelano, o bloqueio econômico, as sanções e a sabotagem internacional
agravaram uma crise que assumiu dimensões humanitárias e migratórias. As
acusações seletivas dos Estados Unidos ao governo de Nicolás Maduro, ao mesmo
tempo em que ignoram o papel central das sanções, escancaram que a intervenção
norte-americana jamais teve como objetivo a democracia ou a defesa dos direitos
humanos. O sofrimento do povo venezuelano vem sendo sistematicamente
instrumentalizado como ferramenta de guerra política e econômica, servindo de
pretexto para justificar uma nova ofensiva imperialista sobre a Venezuela e,
por extensão, sobre toda a América Latina.
A
fragmentação da esquerda diante da crise venezuelana, a hesitação em defender
uma saída política negociada, soberana e sem ingerência estrangeira, bem como a
incapacidade de construir uma narrativa comum contra o imperialismo e o
neoliberalismo, contribuem para enfraquecer ainda mais o campo progressista no
continente.
Enquanto
isso, setores da direita latino-americana — como o governo Milei, na Argentina
— não apenas aceitam, mas celebram a tutela dos Estados Unidos, aprofundando a
dependência econômica e política e criminalizando qualquer projeto de soberania
nacional e justiça social.
A atual
ofensiva de Washington ocorre em um contexto de fragilidade econômica regional,
no qual chantagens financeiras, sanções e pressões comerciais tornam-se armas
políticas. Trump explora essa vulnerabilidade para interferir em processos
eleitorais, fortalecer aliados ideológicos e aprofundar a polarização,
corroendo as bases da democracia. A crença de que intervenções externas
poderiam “salvar” países da violência ou da crise revela, na verdade, o
esgotamento do pacto social em grande parte da América Latina.
Não se
trata apenas de Trump, nem de um fenômeno passageiro. O peso crescente da
migração latino-americana nos Estados Unidos, a disputa geopolítica com a China
e a reorganização do capitalismo global recolocam a América Latina no centro
das disputas imperiais. Ignorar essa realidade constitui um erro estratégico
grave.
Diante
desse cenário, a tarefa histórica da esquerda latino-americana é ampliar sua
capacidade de articulação regional, enfrentar com coragem o debate sobre
segurança pública sem ceder ao autoritarismo e reconstruir um projeto soberano
de desenvolvimento, baseado na justiça social, na integração regional e na
autodeterminação dos povos.
A alternativa ao imperialismo não virá de fora.
Como já ensinou a experiência do “Não à Alca”, somente a unidade popular e
continental pode abrir caminhos para um futuro verdadeiramente democrático e
emancipador.