domingo, 4 de janeiro de 2026

Intervenção na Venezuela: O retorno do imperialismo dos USA à América Latina

 


Em entrevista no sábado (3), sobre as implicações regionais da operação militar realizada na Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro. O Presidente dos USA, Donald Trump, defendeu a intervenção militar e elevou o tom contra países da América Latina. Sinalizando uma postura de confronto. Também direcionou críticas ao presidente colombiano, Gustavo Petro, tratado como aliado do governo venezuelano e fez advertências aos governos do México, da Colômbia e de Cuba, ampliando a tensão diplomática na região. 
Isso demonstra que o avanço dos Estados Unidos sobre a Venezuela não é um fato isolado, nem um desvio circunstancial associado à figura de Donald Trump. Trata-se da retomada explícita de uma lógica histórica de dominação imperial sobre a América Latina, agora reembalada sob os discursos da “segurança”, do combate ao crime organizado e do controle migratório. A ofensiva atual evidencia que a ruptura simbolizada pela derrota da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), em 2005, foi real, porém jamais definitiva.

A Alca, proposta pelos Estados Unidos nos anos 1990, pretendia criar uma ampla zona de livre comércio envolvendo quase todos os países do continente, com exceção de Cuba. Embora apresentada como um projeto de integração econômica, seu objetivo concreto era aprofundar a dependência estrutural das economias latino-americanas, beneficiando majoritariamente as grandes corporações, as multinacionais e o capital estadunidense.



Naquele momento histórico, governos progressistas liderados por Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Lula, marcou o auge de um ciclo de afirmação soberana na região. O “Não à Alca” representou mais do que a rejeição a um acordo comercial: foi a recusa coletiva a um projeto de subordinação econômica, política e social aos interesses do imperialismo. Ao mesmo tempo, a concentração estratégica de Washington no Oriente Médio abriu espaço para experiências de integração regional, como o fortalecimento do Mercosul, a criação da Unasul e da Celac, além da ampliação das relações Sul-Sul.

Entretanto, o refluxo desse ciclo progressista, somado à fragmentação política regional e à ofensiva das elites locais, criou as condições para a restauração da influência direta dos Estados Unidos. A ausência de uma estratégia regional coordenada, aliada às crises de segurança, migração e desigualdade social, forneceu o terreno fértil para o retorno do intervencionismo. Trump apenas radicalizou uma política histórica, tornando-a mais explícita, mais agressiva e menos disfarçada por retóricas diplomáticas.

A chamada “crise da segurança pública”, amplamente explorada pela direita, possui raízes profundas no próprio modelo econômico imposto à região, na guerra às drogas patrocinada pelos Estados Unidos e na destruição sistemática de políticas sociais. A militarização dos territórios pobres e a naturalização da violência estatal são expressões diretas do esgotamento de um modelo que produz exclusão e desigualdade.

Ao mesmo tempo, a esquerda latino-americana, enfrentando os impactos acumulados do neoliberalismo, da desigualdade social e da ofensiva permanente das elites econômicas e dos grandes conglomerados de mídia, encontrou dificuldades para consolidar, uma alternativa sólida, popular e duradoura. Esse vazio foi rapidamente ocupado por projetos conservadores e autoritários, que se apresentaram de forma oportunista como resposta ao descontentamento social, desviando o debate das causas estruturais da crise. A normalização da repressão, as mortes em operações policiais e a militarização do cotidiano revela o grau de desesperança produzido por décadas de exclusão social.



No caso venezuelano, o bloqueio econômico, as sanções e a sabotagem internacional agravaram uma crise que assumiu dimensões humanitárias e migratórias. As acusações seletivas dos Estados Unidos ao governo de Nicolás Maduro, ao mesmo tempo em que ignoram o papel central das sanções, escancaram que a intervenção norte-americana jamais teve como objetivo a democracia ou a defesa dos direitos humanos. O sofrimento do povo venezuelano vem sendo sistematicamente instrumentalizado como ferramenta de guerra política e econômica, servindo de pretexto para justificar uma nova ofensiva imperialista sobre a Venezuela e, por extensão, sobre toda a América Latina.

A fragmentação da esquerda diante da crise venezuelana, a hesitação em defender uma saída política negociada, soberana e sem ingerência estrangeira, bem como a incapacidade de construir uma narrativa comum contra o imperialismo e o neoliberalismo, contribuem para enfraquecer ainda mais o campo progressista no continente.

Enquanto isso, setores da direita latino-americana — como o governo Milei, na Argentina — não apenas aceitam, mas celebram a tutela dos Estados Unidos, aprofundando a dependência econômica e política e criminalizando qualquer projeto de soberania nacional e justiça social.

 

A atual ofensiva de Washington ocorre em um contexto de fragilidade econômica regional, no qual chantagens financeiras, sanções e pressões comerciais tornam-se armas políticas. Trump explora essa vulnerabilidade para interferir em processos eleitorais, fortalecer aliados ideológicos e aprofundar a polarização, corroendo as bases da democracia. A crença de que intervenções externas poderiam “salvar” países da violência ou da crise revela, na verdade, o esgotamento do pacto social em grande parte da América Latina.

Não se trata apenas de Trump, nem de um fenômeno passageiro. O peso crescente da migração latino-americana nos Estados Unidos, a disputa geopolítica com a China e a reorganização do capitalismo global recolocam a América Latina no centro das disputas imperiais. Ignorar essa realidade constitui um erro estratégico grave.

Diante desse cenário, a tarefa histórica da esquerda latino-americana é ampliar sua capacidade de articulação regional, enfrentar com coragem o debate sobre segurança pública sem ceder ao autoritarismo e reconstruir um projeto soberano de desenvolvimento, baseado na justiça social, na integração regional e na autodeterminação dos povos. 


A alternativa ao imperialismo não virá de fora. Como já ensinou a experiência do “Não à Alca”, somente a unidade popular e continental pode abrir caminhos para um futuro verdadeiramente democrático e emancipador.

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